VIAGENS ESTELARES...
Abrir uma porta e… sim, é comum, e não só nos sonhos recorrentes que “apanham” algumas personalidades típicas que podem ser descritas _ porque até existem obras de estudo escritas sobre elas *_ por essa, entre outras, características. Claro, mas … o quê?
Ah, pois, depois da porta, não há nada. Apenas a sensação sempre nova mas sempre esmagadoramente nauseante de queda. Não estou a falar de experiências surrealistas, e muito menos de influência de fármacos, mas tão só da natureza absolutamente “natural” dos tais sonhos de sono profundo _ mais ou menos! _, aos quais me habituei a chamar, desde a infância que permitia vocabulário e referências bibliográficas, “pesadelos de Alice (no País das Maravilhas)”.
Não me refiro a esses. Falo dos que acontecem de sono parado, de vida em curso, embora pareça que a vida devesse parar…para se corrigir, talvez. Agora é mesmo uma metáfora: despenhar-me por mim abaixo é a viagem que tenho tentado adiar descrever, como se degustasse de antemão o amargor que a dificuldade encerra, talvez preparando-me para o deixar ficar, sem o levar de volta comigo, como quem despeja nesta página, aqui, um desagradável lastro, reconhecendo que a nave que percorre galáxias e caminhos de estrelas contém um porão de insondável escuridão e baús que balançam e remexem insuspeitados conteúdos nas voltas e contornos dessas investidas cósmicas…
O pior desse sentimento é a dor que se avoluma e cresce conforme se vai amontoando a experiência de vida ou consciência _ que comigo de pouco serve falar em passagem de tempo, não o conto pessoalmente como quando tenho que o fazer para comprazer os outros.
E de cada vez a indignação sobe como onda crescente de um fogo que faltou em cada um dos tantos momentos em que me despenhei naquele qualquer buraco de aflição e não estava lá este “eu” que agora saberia proteger-se/proteger-me, subtraindo toda a dor da infâmia desnecessária…por frescura, por inocência, por excesso de zelo, por devoção a “falsos deuses”, por…falta de fogo na luta…ou fogo a mais pela paz _ afinal: puro desajuste?! Mas serviria a qualquer fim o estabelecimento de responsabilidades, vulgo: culpas?
É reconhecidamente deliberada a minha rejeição de viagens no tempo com destino a passados: a vida é feita de opções e ninguém as faz virando-se para trás; eu faço-as sobre os aluviões das memórias, não virada para elas. Mas é incontornável e necessário a quem quer que já se tenha colocado perante a hipótese de se ver num cenário de perda de referências _ e toda a gente lê sobre isso, não é?? _ que este tipo de exercício não deixe de ser executado, tal como outro qualquer ritual de preservação da mobilidade física…
Porque a vida se faz de prosa como de poesia, e há que saber conviver com aquela para que esta pulse e seja o linimento e reforço …a caminho das estrelas.
* Refiro-me à caracterização por tipologias, tanto físicas como psicológicas, segundo a predominância das “doshas”, dentro da perspectiva Ayurvédica.
