
...Levantando Âncora...
"O Complexo De Amor"
Vamos então retomar viagem.
Ao leme segue Edgar Morin*; as águas são mansas, os ventos gentis: o tema é “ O Complexo de Amor”, do livro que já aqui nomeámos “Amor, Poesia, Sabedoria”**
E com a noção de que o que se segue é uma síntese-colagem de parcelas do livro que eu transcrevo com algumas adaptações óbvias para o necessário encurtamento, levanto a âncora com a frase do autor:
“Amor é o auge da loucura e da sabedoria”.

E retomando da palavra presente no subtítulo desta página, explica-se que o amor é complexo, no sentido literal, um tecido de diferente fios ou multiplicidade de componentes, em que num extremo existe a componente física (biológica), e no outro a componente mitológica ou imaginária; sim porque (para ele) o mito não é uma superestrutura ou um imaginário, mas uma profunda realidade humana, anterior à própria palavra.

Dos ingredientes físicos, biológicos, antropológicos, a pouco e pouco se vai chegando aos mitológicos, passando pela sacralização do objecto amoroso. E toma então forma no encontro do sagrado com o profano, do mitológico e do sexual,
E embora derivando de uma expansão cultural e social, não obedece à ordem social, ignora leis e tais barreiras: aí, ou as despedaça ou se despedaça, dilacerando-se o indivíduo nesta bipolaridade ou, pelo contrário, “encontrando-se” a si próprio na felicidade do encontro entre a plenitude do corpo com a plenitude da alma. E é assim que o amor vive: renascendo sem cessar, qual Fénix.
Não dizia, também, Mário Césariny:..."[o amor] É a única coisa que há para acreditar. O único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado." ?
O amor conglomera, então, a categoria do sagrado, do sublime, do mítico, do mistério (li, há pouco _mas não sei onde nem de quem_ uma frase que congrega esta ideia, que todos reconhecemos:”Apaixonar-se é criar uma religião própria e idolatrar um deus falível"; a apontar para uma idêntica noção de endeusamento, muitos sorriem com o aforismo: "Ninguém é perfeito, até que alguém se apaixona...").
Perante o cepticismo da razão fria, racionalista e céptica (nascida no Século das Luzes) o amor é, não só dissolvido, como considerado ilusão e loucura.
Numa concepção romântica, ele torna-se a verdade do ser.
Será que se pode encontrar uma razão amorosa dialéctica que ultrapasse as limitações da razão gelada?
Numa concepção romântica, ele torna-se a verdade do ser.
Será que se pode encontrar uma razão amorosa dialéctica que ultrapasse as limitações da razão gelada?
Já se viu que para E. Morin entre homo sapiens e homo demens _ loucura e sabedoria_ não existe uma fronteira nítida; também existem reversibilidades: uma vida racional é uma pura loucura.

“Empurrar a razão para os seus limites conduz ao delírio”. Ora, aqui, o amor surge como síntese, configurando o auge da união da loucura e da sabedoria. Ele traz esta contradição, que acaba por tornar-se uma espécie de chave para a solução da sua própria forma de existência contraditória.
E incluído na crença do que chamamos mitos, sem os quais não se pode viver, o amor (não só o individual mas com, e para além, desse; o amor muito mais alargado) configura-se como a melhor aposta que nos resta fazer_ mesmo com o risco da ilusão_ : entregarmo-nos a ele, dialogando com ele de forma crítica: o amor faz parte da poesia da vida…
Mas atenção: se tudo fosse poesia não seria mais do que prosa! Do mesmo modo que é necessário o sofrimento para se conhecer a felicidade, é necessária a prosa para que haja poesia. Se tivéssemos uma vida em permanência poética nunca a sentiríamos. Temos necessidade da prosa para sentir a poesia.

O Tao-te-king diz: “A infelicidade caminha de braço dado com a felicidade; a felicidade deita-se aos pés da infelicidade”.
Onde reside, aqui, a sabedoria?Em levar uma vida razoável, prosaica, erradicando a aposta no risco, na ilusão, na busca do prazer? Necessário é, sim, aceitar a “consumação” _ por oposto a “consumo”_ o desgaste, o desperdício, uma parte de loucura na vida e aí, sim, talvez encontrar a sabedoria na capacidade de fruir nessa miscigenação de razão com loucura.
Não nos podendo privar de uma dialógica sempre em movimento entre a polaridade de demens e a polaridade de sapiens, será que a sabedoria se resume a evitar a pior demência?
Esse será o esforço da sabedoria. E aí entra a auto-ética.
Mas aqui paro eu, por hoje chega. Há, inclusive pistas para outras paragens.
A viagem continua...

*/** : Autor e obra referenciados na página anterior deste blog.
